O artigo explica por que motivo o resultado líquido de uma entidade (lucro contabilístico) pode ser diferente da variação de caixa no mesmo período. Aborda as três principais causas da divergência — gastos e rendimentos sem movimento de caixa (como depreciações), diferenças temporais entre reconhecimento contabilístico e recebimento/pagamento, e movimentos de caixa que não são rendimentos nem gastos (como investimentos e financiamentos). Ilustra o conceito com um exemplo prático de reconciliação pelo método indireto, ligando o resultado líquido aos fluxos de caixa operacionais, no contexto da NCRF 2 e do SNC.
Porque é que o lucro contabilístico é diferente do caixa? Porque medem grandezas diferentes.
Lucro e caixa medem coisas diferentes
O resultado líquido do período mede o desempenho económico da entidade. Resulta da diferença entre rendimentos e gastos reconhecidos no período, segundo o regime do acréscimo, independentemente de o dinheiro já ter sido recebido ou pago.
O caixa mede a tesouraria. Corresponde à diferença entre os recebimentos e os pagamentos efetivamente ocorridos no período.
O lucro responde à pergunta: a entidade gerou valor?
O caixa responde a outra: a entidade dispõe de dinheiro para cumprir os seus pagamentos?
Por isso, uma empresa pode apresentar lucro e, ainda assim, enfrentar dificuldades de tesouraria.
As três razões por trás da divergência entre lucro e caixa
Rendimentos e gastos sem movimento de caixa
Há rendimentos e gastos que afetam o resultado, mas não originam qualquer recebimento ou pagamento no período.
As depreciações e amortizações são o exemplo mais frequente: reduzem o resultado, mas não representam uma saída de caixa no período em que são reconhecidas. O mesmo pode suceder com perdas por imparidade, reversões de imparidade, provisões, variações de justo valor ou resultados reconhecidos pelo método da equivalência patrimonial.
Diferenças temporais entre reconhecimento e recebimento/pagamento
Há diferenças no tempo entre o reconhecimento contabilístico e o movimento de dinheiro.
Uma venda a crédito aumenta o rédito e o lucro no momento da venda, mas o caixa apenas aumenta quando o cliente paga. Um serviço adquirido a crédito pode originar gasto antes do respetivo pagamento. Na compra de inventários, o pagamento pode ocorrer antes ou depois, mas o gasto apenas é reconhecido quando os bens são vendidos ou consumidos. Os acréscimos, diferimentos, impostos a pagar e outros saldos de balanço também explicam parte importante desta diferença.
Movimentos de caixa que não são rendimentos nem gastos
Existem movimentos de caixa que não são rendimentos nem gastos e, por isso, não constam da demonstração dos resultados.
A aquisição de um equipamento reduz imediatamente o caixa, mas não reduz de imediato o resultado: o custo é reconhecido ao longo da vida útil por via das depreciações. Do mesmo modo, financiamentos obtidos, reembolsos de empréstimos, aumentos de capital e dividendos pagos afetam a tesouraria, mas não integram o resultado líquido do período.
Exemplo prático: o caso da Entidade A
Apura vendas de 600.000€, gastos operacionais de 430.000€, depreciações de 30.000€, juros de 10.000€, imposto sobre o rendimento de 20.000€ e uma reversão de perdas por imparidade de 10.000€.
O resultado líquido do período é de 120.000€.
Contudo, o caixa aumenta apenas 26.000€.
Para compreender a diferença, parte-se do resultado líquido de 120.000€. Acrescentam-se 30.000€ de depreciações, porque correspondem a um gasto sem pagamento no período. Deduzem-se 10.000€ da reversão de imparidade, por ser um rendimento sem recebimento. Deduzem-se 45.000€ relativos ao aumento das dívidas de clientes, correspondentes a vendas reconhecidas, mas ainda não recebidas. Acrescentam-se 15.000€ relativos ao aumento das dívidas a fornecedores, porque correspondem a gastos reconhecidos, mas ainda não pagos.
Assim, os fluxos de caixa das atividades operacionais ascendem a 110.000€.
Mas a entidade adquiriu equipamento por 60.000€ e distribuiu dividendos de 24.000€. Por isso, a variação final do caixa é apenas de 26.000€.
Resultado líquido: 120.000€
Caixa gerado pelas atividades operacionais: 110.000€
Variação final do caixa: 26.000€

O papel da demonstração dos fluxos de caixa
Não existe contradição. Existe uma diferença entre desempenho económico, geração de caixa pelas operações e variação total da tesouraria.
A demonstração dos fluxos de caixa permite compreender a origem e a aplicação do caixa nas atividades operacionais, de investimento e de financiamento. No SNC, é apresentada pelo método direto, nos termos da NCRF 2. A reconciliação pelo método indireto é uma ferramenta analítica útil para explicar como se passa do resultado líquido para os fluxos de caixa gerados pelas operações.
Analisar apenas o lucro não basta. Uma empresa financeiramente saudável deve gerar resultados, transformar esses resultados em recebimentos e gerir devidamente os seus pagamentos, investimentos e financiamentos.
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